Doenças autoimunes: um desafio para o diagnóstico

Sofia Pires 

O sistema imunológico é um órgão complexo, muitas vezes menosprezado. Agindo como uma sentinela, reconhece as células do organismo como suas, protegendo-o de substâncias estranhas, tais como: bactérias, vírus, fungos, polens ou até mesmo células cancerígenas. 

Por fenômenos que ainda não são totalmente compreendidos, existe uma desregulação do sistema de reconhecimento imunológico, havendo uma ativação dos mecanismos de defesa, que erroneamente atacam os próprios tecidos do organismo. Se essa desregulação persistir, é iniciada uma cascata de inflamação sistêmica, que despoleta a ativação patológica de células e a produção de anticorpos, visando a destruição de determinado órgão ou tecidos são. 

Este conjunto de doenças em que há uma superativação do sistema imunitário apelida-se de doenças autoimunes. 

Atualmente, existem mais de cem doenças autoimunes identificadas, sendo exemplos a diabetes tipo I, a artrite reumatoide, o lúpus eritematoso sistêmico, a doença de Behçet, a síndrome antifosfolipídico, a síndrome de Sjögren, a tiroidite de Graves, as casculites e a psoríase, entre outras. 

Podendo haver uma predisposição genética, são patologias raras que atingem três vezes mais mulheres do que homens e que na sua fase inicial habitualmente cursam com sintomatologia inespecífica, como fadiga extrema inexplicável, mal-estar generalizado e febre. É frequente o diagnóstico ser tardio, pois a instalação insidiosa dos sintomas e o seu caráter inespecífico levam a que muitas vezes sejam confundidas com outras doenças mais frequentes. A apresentação clínica varia segundo a doença e os órgãos mais afetados por ela. A inflamação e a lesão decorrente da ativação do sistema imunitário podem causar dor, deformidade articular, acumulação de líquidos (edemas), dificuldade respiratória, alterações da visão, problemas cardíacos, renais, de pele ou dos vasos sanguíneos. Potencialmente, todos os órgãos podem ser afetados, sendo que a mesma doença pode ter um grau de gravidade totalmente diferente em indivíduos distintos, manifestando-se de forma tênue em alguns casos e cursando com falência orgânica noutros. 

O diagnóstico de uma patologia do foro autoimune é sempre um desafio pela sua elevada complexidade clínica. O seguimento desta família de patologias exige uma visão diferenciada, tendo em conta o envolvimento multissistêmico, a necessidade de vigiar apertadamente sintomas e a utilização de fármacos moduladores do sistema imunitário, alguns com elevado risco de toxicidade e necessidade de monitorização frequente. 

A orientação em consulta especializada de doenças autoimunes é fundamental para um diagnóstico célere, controle da doença e prevenção de dano irreversível, tendo em vista a manutenção da qualidade de vida do doente. 

———————- 

FONTE: PIRES, Sofia. Doenças autoimunes: um desafio para o diagnóstico. In. Jornal de Notícias.  Porto (Portugal): Global Notícias, 13/07/2020, ano 133, n. 42. (Caderno Comercial / Edição Norte / Trofa Saúde) 

Obrigado pelo seu comentário!