As crônicas da peste

De Boccaccio a Camus e García Marquez, a literatura oferece uma viagem a outros tempos em que homens e mulheres enfrentaram o medo e o sofrimento com grandes epidemias 

Jerônimo Teixeira 

Se o coronavírus representa um perigo maior para os pacientes acima dos 60 anos, a peste negra matava muitos jovens. Talvez até se possa contar o casal adolescentes mais célebre da literatura entre as vítimas da doença. Sim, o fim trágico de Romeu e Julieta foi, de forma indireta, precipitado pela peste. Em Verona, Frei João fora encarregado de levar a Romeu, exilado em Mântua, uma carta em que se revelava o estratagema com que Julieta escaparia ao indesejado casamento com Páris, que a família lhe impunha: uma droga poderosa faria a moça entrar em um coma severo, semelhante à morte. Antes da viagem, porém, o bom frade é detido em meio a seu trabalho de caridade: a porta da casa onde atendia doentes foi selada pelas patrulhas sanitárias – procedimento que se adotava para isolar o mal por volta de 1595, quando William Shakespeare escreveu Romeu e Julieta. A carta nunca chega ao jovem apaixonado, e segue-se o triste e conhecido final: Romeu bebe o veneno ao ver o corpo inanimado de Julieta ao lado do amado morto e usa o punhal dele para também se suicidar. A peste nunca ocupou o centro dos dramas de Shakespeare, mas alusões ao mal seriam inescapáveis. Em uma carreira de dramaturgo, ator e sócio de companhia teatral que se estende da década de 1590 aos primeiros anos da década de 1610, Shakespeare viu várias temporadas suspensas por causa de surtos da doença que, em sua expansão pandêmica no século XIV, teria extirpado mais de 100 milhões de vidas. Hoje, quando por todo o mundo também se cancelam peças teatrais – e shows, festas, eventos esportivos – para limitar o contágio do Covid-19, a leitura de obras literárias que no passado trataram de grandes epidemias pode nos dar alguma perspectiva sobre a presente ameaça viral. 

Composto provavelmente entre os séculos IX e VIII a.C., a Ilíada, poema épico de Homero, começa com a peste devastando o acampamento dos gregos em cerco à cidade inimiga de Troia. Desde sempre o caráter de maldição divina aparece de algum modo associado às epidemias: é o deus Apolo que, com arco e flecha, faz a moléstia cair primeiro sobre mulas e cães, depois sobre os helenos. O poema homérico, tão detalhista na descrição de batalhas ou dos adereços do escudo de Aquiles, nada diz sobre a doença e seus sintomas. O retrato mais expressivo que já se fez de uma epidemia provavelmente ainda se encontra nas páginas iniciais de Decameron, do italiano Giovanni Boccaccio. Essa coletânea de contos tende a ser colocada com muita ligeireza na prateleira dos livros eróticos, quando na verdade nem todos os seus relatos são povoados por padres fesceninos. E a moldura histórica com que Boccaccio enquadra seus contos diz respeito mais à morte do que ao amor: contar histórias foi o aprazível modo como dez jovens florentinos – sete donzelas e três rapazes – resolveram passar o tempo na idílica propriedade rural onde buscaram refúgio quando a peste, vinda do Oriente, chegou a Florença, em 1348. 

Estima-se que um quinto da população da cidade morreu então. O florentino Boccaccio viu a devastação de perto e perdeu o pai para a peste. A principal característica da doença, informa o prefácio do Decameron, eram os chamados “bubões” (inflamações nos gânglios; daí o nome “peste bubônica”), que em alguns casos “atingiam o tamanho de uma maçã”. Desse inchaço nas virilhas e axilas, a doença progredia para o resto do corpo, em “manchas negras ou lívidas” que constituíam “indício inegável de morte próxima”, em geral depois de três excruciantes dias. Os médicos nada sabiam nem das causas da doença, nem dos meios para trata-las. Era frequente que só se soubesse da morte de um vizinho quando seu corpo começava a feder, e os mais pobres morriam à míngua, na rua. As cerimonias fúnebres eram apressadas e superficiais: jogava-se o cadáver na cova mais próxima. A observação arguta de Boccaccio documenta a erosão que a epidemia causou nos laços sociais mais básicos. Por medo do contágio, evitavam-se os doentes, que não raro agonizavam sozinhos, sem ter quem os amparasse. Algumas pessoas fechavam-se em suas casas, vivendo de provisões frugais à espera do fim da epidemia; outra entregavam-se à bebida, à diversão e ao “comportamento animalesco”. Extinguira-se “a venerada autoridade das leis divinas e humanas”, lamenta Boccaccio, e por isso tornara-se “lícito para cada um fazer o que bem entendesse”. 

O quadro dramático de Florença no século XIV se repetira em Londres no século XVII, a julgar por Um diário do ano da peste, de Daniel Defoe, mais conhecido como autor de Robinson Crusoé. Publicado em 1719, o livro é um relato sobre o último grande surto da peste em Londres, em 1665, tal como testemunhado por um sobrevivente. É difícil decidir se essa é uma obra de ficção ou um relato documental. Nascido em 1660, Defoe seria muito pequeno para ter observado a degradação que a epidemia provocou na cidade com o nível de detalhe que sua narrativa apresenta, mas pode ter reproduzido o que ouviu de testemunhas mais velhas – um tio seu, como o narrador da história, trabalhava então em Londres na confecção de selas. De todo modo, é um relato vívido do horror da peste, ainda que às vezes um tanto fastidioso no registro do número de mortes em cada paróquia de Londres. Residente em um dos últimos bairros atingidos pela doença, o narrador acompanha a progressão da morte com uma curiosidade às vezes compadecida – como quando narra o caso da senhora que enlouquece ao perder a filha única, de 19 anos –, às vezes, mórbida – ele faz questão, por exemplo, de testemunhar o sepultamento de pilhas de cadáveres em uma vala comum. O leitor aprende que em 1665 persistia ainda o procedimento – mencionado cerca de 70 anos antes em Romeu e Julieta –, de lacrar as casas onde havia doentes, pintando uma cruz vermelha na porta. Defoe conta casos de famílias desesperadas que quebravam paredes para fugir a esse isolamento compulsório. 

Comparando Um diário… ao Decameron, não se nota avanço significativo no conhecimento científico da doença. Defoe, muito de passagem, menciona os ratos: as autoridades londrinas incluíram os roedores na campanha de extermínio a cães e gatos que, supunham, carregariam a doença de uma casa para outra. Não se suspeitava o papel da pulga do rato na disseminação da moléstia, cujo agente, a bactéria Yersinia pestis, só seria descoberta no final do século XIX. Albert Camus escreveu outro clássico das epidemias, já com conhecimento científico das causas do mal. A peste, romance de 1947, começa com uma estranha erupção de ratos agonizantes em Orã, na Argélia (país onde o autor nasceu, filho de pais franceses). Em seguida, as pessoas adoecem, e a epidemia segue seu ciclo mortal, até desaparecer, mas – e este é o ponto-chave do romance – não todo: o médico Rieux sabe que o bacilo “não morre nem desaparece nunca”, permanecendo adormecido por anos até um novo surto. Ao fundo do drama médico, há alusões a uma ferida nacional então ainda muito recente na França, o colaboracionismo de muitos cidadãos do país durante a ocupação nazista, e também uma reflexão moral sobre como se portar diante não apenas da doença, mas da opressão, do terror, do mal. O romance foi recebido com incompreensão e até alguma hostilidade pela crítica, em um contexto no qual se exigia do intelectual o alinhamento claro com esta ou aquela ideologia (a tal “polarização” não é tão recente quanto se pensa). “Camus era um homem apolítico”, define o historiador inglês Tony Judt no livro O peso da responsabilidade. Isso não quer dizer que ele fosse descompromissado com as questões de seu tempo, ao contrário: apenas não sentia o apelo do que Judt chamou de “encantos do engajamento”. 

Com suas evocações medievais de paisagens povoadas por esqueletos – como o quadro O triunfo da morte, de Bruegel –, a peste parece ter se consolidado como a mais “literária” das doenças epidêmicas. A tuberculose, que matou artistas e escritores das mais variadas estirpes – de Casimiro de Abreu a Franz Kafka –, já carregou a aura romântica do “mal do século “ (no caso, século XIX), mas não serve para grandes painéis de degeneração social (embora o sanatório para tuberculosos tenha fornecido a Thomas Mann o cenário ideal para representar os dilemas morais e intelectuais da Europa do início do século XX em A montanha mágica). 

Um sucedâneo da peste na história da renhida luta entre a humanidade e os agentes patogênicos também ganhou sua dose de celebridade literária: o cólera. Doença associada a más condições sanitárias, o cólera grassava em Veneza quando Thomas Mann (ele de novo) passou férias na cidade, em companhia da mulher, em 1911. Lá, o escritor alemão ficou fascinado com a beleza de um menino polonês, Wladyslaw Moes. Morte em Veneza, publicado no ano seguinte, transfigura esses dados biográficos: o escritor alemão Gustav von Aschenbach passa sozinho, as férias em Veneza, onde é seduzido pela beleza de Tadzio, um polonês de 14 anos hospedado com a família, no mesmo hotel. O cólera é uma presença atmosférica ao longo do livro, um mal elusivo que se denuncia aqui pelas emanações pestilentas dos canais de Veneza, ali pelo cheiro do detergente com que as autoridades locais tentam inutilmente conter o surto. Os habitantes locais sonegam informações aos turistas, mas Aschenbach afinal ouve a verdade de um agente de viagens inglês. O escritor tenta deixar a cidade, mas, retido por uma confusão com sua bagagem, acaba ficando, intoxicado pelos ares decadentes de Veneza e encantado pela beleza ideal de Tadzio. 

Esteta enraizado no humanismo europeu, Aschenbach se deixa arrebatar pela ilusão de rejuvenescimento representada por Tadzio, e talvez a Europa, então ás vésperas de uma guerra cruenta, estivesse se perdendo com ele. Thomas Mann, um tanto mais lúcido, deixou Veneza quando soube do cólera. A doença reaparece em O amor nos tempos do cólera, romance do colombiano Gabriel García Marquez lançado em 1985. De volta à Colômbia depois de realizar estudos em Paris, o médico Juvenal Urbino empenha-se em corrigir as condições sanitárias que tornaram o cólera endêmico em sua cidade natal (não nomeada no livro). Parece que só Urbino, em toda a cidade, “tinha a consciência da ameaça mortal que era a água de beber”. Seu pai, também médico, morrera da doença quando tentava debelar uma epidemia, ao tempo em que Juvenal estava na Europa. Aqui, as características sociais da doença – sua associação com a miséria e com a desídia das autoridades urbanas – é bem mais enfatizada. A descrição dos cemitérios que “transbordavam” de cadáveres durante a epidemia lembra descrições igualmente tétricas no Decameron e em Um diário do ano da peste. 

Nos anos 80 do século passado, a epidemia de HIV parecia barrar o ímpeto da revolução sexual da década de 1960, e a aids se impôs como a peste pós-moderna. Entre outras obras, a peça Anjos na América, de Tony Kushner, e o romance As horas, de Michael Cunningham, dedicaram-se ao tema. No século XXI, veríamos um grande escritor sair de cena com uma história centrada sobre a já um tanto esquecida epidemia de poliomielite. A ação de Nêmesis, do americano Philip Roth, transcorre em Newark, cidade natal do autor, em 1944 – a primeira vacina contra a pólio só seria desenvolvida por Jonas Salk 11 anos depois; e a vacina de Albert Sabin, mais eficiente, começaria a ser empregada em 1961. O herói do livro é o professor de educação física Eugene “Bucky” Cantor. Impedido de servir às Forças Armadas na Segunda Guerra Mundial por problemas de visão, Buchy resigna-se a trinar as crianças na escola do bairro judaico onde sempre viveu. Quando um surto de poliomielite começa a afligir os alunos, ele toma uma decisão cujas consequências evocarão as ideias trágicas de destino e predestinação que tais doenças carregam desde que Apolo alvejou soldados gregos com as setas da peste. O livro foi publicado em 2010, e dois anos depois Roth anunciava sua aposentadoria: não escreveria mais ficção. Morreu em 2018, aos 85 anos. Nêmesis não tem a estatura de obras anteriores como O teatro de Sabbath ou A marca humana, mas representa um belo ponto final para a obra do escritor. 

Parecerá talvez mórbido buscar os livros indicados aqui para eventuais dias de ociosidade na prática hoje recomendada – e já imperativa em países como Itália e Espanha – do “distanciamento social”. Quem em meio a uma pandemia global, quer saber das covas coletivas das vítimas de peste de que fala Defoe, ou ler a descrição que Thomas Mann faz da agonia provocada pelo “cólera seco”, ou acompanhar os personagens de Philip Roth ao pulmão metálico que os socorre quando a pólio compromete a respiração? O leitor que se dispuser à empreitada, no entanto, talvez encontre o consolo de saber que não estamos sozinhos, que outros homens e mulheres, antes de nós, enfrentaram o medo e o sofrimento da doença. Os dez jovens de Boccaccio nos apresenta em Decameron ensinam ainda o valor de compartilhar história nos momentos de dor. E provam que é possível resguardar instantes de alegria mesmo quando a peste nos confronta com a precariedade da vida humana. 

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FONTE: TEIXEIRA, Jerônimo. As crônicas da peste. In. Revista Época. Rio de Janeiro: Editora Globo, n. 1132, 23/03/2020, páginas 74-81. (Conforto Literário) 

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