Maria: Fraternidade e Comunidade

É interessante que no relato dos Atos dos Apóstolos (Atos 1,14-15 e 2,1-21), Maria não aparece incluída em nenhum dos três grupos mencionados no texto: os apóstolos, as mulheres e os irmãos de Jesus. Ela é nomeada a parte, o qual nos indica que ocupava um lugar importante. Como manifestou sua fé e ficou plena do Espírito Santo na anunciação, também agora, ela se encontra presente em um momento chave, e, novamente, é agraciada com o Espírito, que desce sobre ela, mas desta vez, em comunidade. 

Apesar de que nos Atos 2,1-21, Maria não é mencionada explicitamente, supõe-se sua presença, pois, quando diz: “estavam todos reunidos”, os biblistas supõem que esse “todos” se refere ao grupo mencionado anteriormente no Atos 1,14. Com a descida do Espírito se produz agora um novo nascimento proveniente de Deus, a Igreja; e é muito provável historicamente que Maria tenha estado presente e formando parte da primeira Igreja de Jerusalém. É importante recordar que nesta cena não estão somente os apóstolos, ou só os discípulos mais velhos “[…] necessitamos apresentar atenção especialmente às mulheres que se falam ali também. Elas não se apresentam como extras, mas sim, como parte integrante da comunidade de oração de Jerusalém”. 

Estas mulheres eram as verdadeiras discípulas de Jesus, provavelmente, como supõem os biblistas, tratam-se das mesmas que aparecem no relato da paixão do evangelho de Lucas. Elas desempenharam um papel essencial, dando testemunho do sepulcro vazio: foram mulheres as que interpretaram como ressurreição o que aconteceu logo depois da morte de Jesus. Sua contribuição é decisiva no momento mais importante da história cristã. Com seu testemunho, contribuíram ao credo básico do cristianismo. “Elas foram as primeiras a entender a fé na ressurreição, que é o fundamento da Igreja”. Seria, por acaso, errado chamá-las, neste sentido, fundadoras da Igreja? Estas mulheres também são cheias do Espírito Santo e impulsionadas a falar, mais do que nunca, junto com Maria e os discípulos no Pentecostes. 

É lamentável que logo as mulheres não apareçam mais vezes nos relatos dos Atos dos Apóstolos. Lucas se centra em Pedro e Paulo, e nas escassas ocasiões em que é mencionada alguma mulher, nunca as ouvimos falar. Embora, apesar dos poucos relatos sobre mulheres, com dados de sua presença outorgados pelos evangelhos e o relato de Pentecostes, não é difícil de imagina-las missionando e pregando no início da Igreja. Nesse sentido: 

“Apesar de ter sido reduzida a ser vista somente de relance, enquanto toda a atenção estava voltada para as glórias de Maria, privou toda a Igreja de toda história de sua fundação e, das mulheres, de sua herança feminina no Espírito. […] Aqui no Pentecostes, historicamente e no texto dos Atos, Maria se encontra entre as mulheres fundadoras da Igreja, igual aos homens”. 

Vê-se aqui a importância de não separar Maria do resto da comunidade da qual ela formava parte, especialmente das outras mulheres que compartilhavam sua vida cotidianas, sua fé e sua esperança com ela. Maria não aparece neste contexto como um membro central, único e ideal, mas, como “… membro único entre outros membros únicos …”. O centro da comunidade é o Espírito, e todos os que se encontram invadidos por Ele. 

A teóloga espanhola M. Navarro Puerto desta a importância que tem este texto junto com o texto de João 19,25-27, a hora de captar o sentido de Maria na comunidade Igreja. Ela não necessita receber o Espírito Santo, pois já o havia recebido desde a anunciação. Mas aqui recebe uma nova proposta de Deus, a partir do projeto de inaugurado pela morte e ressurreição do seu Filho, o nascimento da Igreja a que ela se encontra profundamente unida. Assim, como ela cuidou e sustentou a vida de Jesus desde pequeno, agora seu corpo se faz comunidade, e, até esta comunidade se estende a missão de Maria: “Continua o que Deus começou Nela, continua o que Ela começou a partir da fé”. 

Sua presença, que já possuía o Espírito, era preparatória para receber o Espírito nesse dia no Pentecostes: “Maria se deixar inserir na comunidade, passando de mãe (Atos 1,14) aos irmãos (Atos 1,15): propiciando desde dentro a fraternidade…”. 

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FONTEReflexión y LiberaciónMaria: Fraternidade e Comunidade. Disponível em: <http://www.reflexionyliberacion.cl/ryl/2020/08/13/maria-fraternidad-y-comunidad/>. Tradução: Agnaldo Marques. 

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