Delivery

Luís Fernando Veríssimo

Nada simboliza melhor nossa submissão ao colonialismo cultural do que dizer “delivery” em vez de “entrega”. Por nenhuma razão especial, salvo subserviência ao império da língua inglesa, começou-se a substituir o perfeitamente adequado, claro, inteligível o nosso “entrega” por “delivery”. Que não significa nada além de simples entrega. De qualquer coisa – até de pizza.

Antes você ainda encontrava quem concordasse com sua revolta.

– “Delivery”! A que ponto chegamos!

– Ridículos, né?

– Ridículo! Qualquer lojinha, qualquer boteco, oferece “delivery”. Por que não “entrega”?

– “Entrega em domicílio”… É bonito isso.

– O português é uma língua bonita.

– Quem precisa do inglês?

Hoje é mais difícil encontrar um aliado na luta contra o entreguismo linguístico. As pessoas já aceitam o inglês como uma alternativa ao português, como a língua que nos espera no paraíso quando formos todos americanos. Ainda não chegamos lá, mas já temos o vocabulário.

– Você não acha “delivery”, em vez de “entrega”, o fim?

– Não sei … “Delivery” me parece mais fino.

Paciência. “Delivery”, em vez de “entrega”, acaba só tendo importância para quem desespera de um país cujo povo tem vergonha da própria língua. O coronavírus, que está alterando tudo em nossas vidas, não poderia deixar de mudar nosso modo de falar, e importar o que deve nos preocupar nesta hora obscura da nacionalidade. “Delivery” pertence à linguagem prática da crise. Ainda mais com tanta gente trancada em suas casas esperando a “delivery” da pizza.

Fora da crise, a submissão continua. Como sabe aquela mãe que não consegue entender para onde vai o filho adolescente.

– É um draivitru, mãe.

– O que?

– Um drivitru.

– A mãe jamais entenderá o que é um “drive-thru”.


FONTE: (recebido por e-mail)

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