Moby Dick

Dom José Francisco Rezende Dias 

Você pode não ter ouvido falar de Herman Melville, mas dificilmente nunca terá ouvido falar de Moby Dick: o monstro marinho que sempre reaparece em novas roupagens e produções, nos ingredientes de uma mesma história recontada em todas as outras: o conflito entre o homem e a natureza, a luta do indivíduo com seu destino, o combate entre o bem e o mal, mistério supremo da existência, quase sucedâneo de Deus. Isso só bastaria para colocar Moby Dick entre as obras perenes. 

Quando o autor fala de viagens, uma das metáforas mais universais da vida humana, na verdade, só reproduz essa obsessão metafísica de apresentar a vida como uma viagem transcorrida quase sempre numa nave de loucos. As viagens narradas em seus livros – eram, no fundo, a viagem do homem ao desconhecido oceano da vida. 

Nessa interpretação andarilha da existência humana, que reaparece dos clássicos aos modernos, o homem está sempre saindo e indo. Procura o Tosão de Ouro, desce aos infernos ou sobe ao paraíso, persegue caminhos perdidos, ao oriente do Oriente, reclama uma ilha, descobre seres estranhos que povoam uma parte não menos estranha do mundo. Só para, depois de tudo isso, encontrar sua cidade natal, o lugar de onde veio, suas próprias origens onde se desvela sua honra e sua miséria. 

Engana-se quem pensa ou leu que a baleia procurada pelo capitão Ahab em todos os oceanos do mundo fosse um grande cetáceo. Não é. tal como o animal bíblico que engole Jonas, a baleia significa a inocência da vida selvagem antes que a civilização, com seu racionalismo, industrialização e tecnologia, viesse manchar. Talvez a perigosa baleia branca ainda passeie no íntimo de cada um. 

No final, a baleia ferida que faz o navio naufragar é um alerta a ser ouvido e seguido. Que metáfora! 

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FONTE: DIAS, Dom José Francisco Rezende. Moby Dick. In. Jornal A Tribuna. Niterói: Editora Esquema, ano LXXXIV, n, 35.173, 13/05/2020, pág. 2  

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