O nono planeta

TheObserver O provável substituto de Plutão muda a compreensão sobre o surgimento do Sistema Solar. 

Por Stuart Clark 

Você poderia pensar que, se encontrasse a primeira evidência de um planeta maior que a Terra oculto nas profundezas do nosso sistema solar, seria um grande momento. Isso faria você um dos poucos em toda a história a descobrir algo desse tipo. Mas para o astrônomo Scott Sheppard, da Carnegie Institution for Science, em Washington, foi um assunto muito mais tranquilo. “Não houve um momento ‘eureka’”, disse. “As evidências se acumularam lentamente”. 

Ele é mestre do eufemismo. Desde que Sheppard e seu colaborador Chad Trujillo, da Universidade do Norte do Arizona, publicaram suspeitas sobre o planeta invisível em 2014, as evidências só continuaram a aumentar. Quando perguntado quanto ele está convencido de que o novo mundo, que chama de PlanetaX (embora muitos outros astrônomos o chamem de Planeta9), realmente existe, Sheppard apensa diz: “Eu acho que é mais provável do que improvável que exista”. Quanto ao resto da comunidade astronômica, na maioria dos setores há uma animação palpável por encontrar esse mundo. Grande parte da empolgação concentra-se na inauguração de um novo telescópio gigante chamado Vera C. Rubin, a astrônoma que, na década de 1970, descobriu algumas das primeiras evidências da matéria escura. 

Programado para começar a sua pesquisa completa do céu em 2022, o observatório Rubin poderá encontrar o planeta de forma definitiva, ou fornecer evidências circunstanciais de que ele está lá. A descoberta seria um triunfo, mas também um desastre para a atual teoria sobre como o Sistema Solar foi criado. “Isso mudaria tudo o que pensávamos conhecer sobre a formação dos planetas”, disse Sheppard, em mais um eufemismo característico. Na verdade, ninguém tem ideia de como um planeta tão grande poderia se formar tão longe do Sol. 

O sistema solar distante é um lugar de escuridão e mistério. Ele abrange um enorme volume de espaço que começa na órbita de Netuno, cerca de 30 vezes mais distante do Sol do que a Terra, ou 30 unidades astronômicas, e se estende a cerca de 100 mil UA. É quase um terço da distância do Sol até a outra estrela mais próxima. 

Foi nas regiões internas desse volume que o astrônomo norte-americano Clyde Tombaugh descobriu Plutão em 1930. Embora Plutão possuísse apenas dois terços do diâmetro da Lua, foi originalmente classificado como planeta.  

No fim do século passado, entretanto, os telescópios eram maiores, e os astrônomos começaram a encontrar mais mundos pequenos além de Netuno. Eram todos ainda menores do que Plutão até 2005, quando Mike Brown, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, descobriu Eris. Tinha ao menos o mesmo tamanho de Plutão, provavelmente maior, então, se Plutão era um planeta, Eris também era. A Nasa organizou apressadamente uma conferência de imprensa e anunciou a descoberta do Planeta X. 

Cerca de um ano depois, a União Astronômica Internacional decidiu que Plutão e Eris eram efetivamente pequenos demais para ser chamados de planetas, e os renomeou como planetas anões. Assim, a chamada do Sistema Solar retornou a oito: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. E uma indústria caseira de encontrar objetos distantes do Sistema Solar realmente começou.  

O caminho para o Planeta 9 começou certa noite em 2012, quando Sheppard e Trujillo usavam o telescópio do Observatório Interamericano Cerro Tololo, no Chile. Eles encontravam objetos cada vez mais distantes, mas um em particular se destacava. Catalogado como VP113 2012, eles apelidaram de Biden, em homenagem ao vice-presidente dos Estados Unidos na época (por causa das letras VP na designação do catálogo). Para sua surpresa, esse mundo distante nunca chegou mais perto do Sol que cerca de 80 UA. No ponto mais distante, Biden alcançaria 440UA no espaço profundo, o que significa que seguia uma órbita altamente elíptica. Mas essa não era a coisa mais notável a seu respeito.  

Por uma estranha coincidência, sua órbita parecia muito semelhante àquela de outro mundo distante conhecido como Sedna. Esse minimundo foi descoberto em 2003 por Brown, Trujillo e David Rabinowitz, da Universidade Yale. Ele se destacou imediatamente por causa da sua órbita altamente elíptica, que oscila entre 76 UA e 937 UA.  

”Objetos como Sedna e 2012 VP113 não podem se formar nessas órbitas excêntricas”, disse Sheppard. Simulações em computador sugerem que eles se formam muito mais próximos e depios são ejetados por interações gravitacionais com os planetas maiores. O mais estranho era, porém, que as duas órbitas alongadas apontavam, aproximadamente, na mesma direção. E quanto mais Sheppard e Trujillo examinavam os outros objetos em sua captura, mais eles viam que essas órbitas também estavam alinhadas. Era como se algo estivesse encurralando aqueles minúsculos mundos, como um cão pastor manobrando seu rebanho. E a única coisa que eles conseguiram pensar que seria capaz de fazer isso era um planeta muito maior. 

A curiosidade os espicaçou, eles fizeram alguns cálculos e descobriram que o planeta que seus resultados sugeriam teria de ser algo entre duas e 15 vezes mais maciço do que a Terra, em uma órbita que fica, em média, entre 250 UA e 1,5 mil UA do Sol. Seus resultados foram publicados pela prestigiosa revista Nature em março de 2014, e o interesse pelo Planeta 9 começou a ocupar o mundo astronômico. 

Mesmo que o telescópio não consiga ver o planeta diretamente, ele detectará muitos minimundos mais distantes que poderão ser usados para triangular a posição do planeta com mais precisão, ajudando assim a restringir a área de pesquisa. E se o Planeta 9 realmente estiver por aí, as consequências serão enormes.  

Os astrônomos pensam que o Sistema Solar se formou em um disco de matéria ao redor do Sol. Essa matéria se condensou em corpos menores, que depois colidiram para formar corpos maiores. No fim desse processo, nasceram os planetas. Mas a matéria nesse disco se afina mais longe do Sol, significando que não há matéria-prima suficiente para formar um grande planeta no sistema solar distante.  

Para salvar a teoria-padrão, alguns sugerem que o Planeta 9 se destinava a um gigante gasoso como Júpiter ou Saturno, e por isso estava se formando ao lado deles. Uma interação gravitacional atrapalhou seu crescimento, lançando-o no escuro. 

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FONTE: CLARK, Stuart. O nono planeta. In. Revista Carta Capital. São Paulo: Editora Confiança, 08/07/2020, ano XXV, n. 1113, pág. 45-47. (QI Guia vida contemporânea) 

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