Sol poente

Antonio Torrado

Ia um homem a correr por uma extensa planície relvada, que nem cem campos de futebol, uns a seguir aos outros. Ia o homem a bom correr, mas não ia sozinho. 

Atrás dele, resfolegante, de chifres curvados, um enorme boi. Aliás, um touro. O homem corria, corria, nem ele sabia para onde, gritando: 

– Uma árvore! Socorro! Uma árvore! 

Mas naquela planície não tinham plantado nenhuma, nem as árvores se deslocam donde estão, para socorrerem um pobre homem, a correr numa planície nua. 

– Um buraco! Ao menos, um buraco! Socorro! – gritava o homem, quase no limite das suas forças. 

Mas também não havia buracos, naquela planície lisa. Situação desesperante. 

A sombra do homem e a sombra do touro deslizavam pelo chão, quase a tocarem-se. Alongavam-se uma e outra, cada vez mais estiradas pela planície, porque o Sol descia a olhos vistos e, daí a nada, iria desaparecer no horizonte. 

– Se continuas a perseguir-me, roubo-te o Sol – gritou o homem, num último alento. 

O touro não lhe deu ouvidos. Continuou a correr de cabeça baixa, atrás do homem. Nisto, o Sol escondeu-se, sem dizer sequer: “Até amanhã”. 

– Vês do que eu sou capaz? – gritou o homem, sem parar de correr. 

As sombras do homem e do touro tinham sido engolidas pela penumbra. O touro estacou, atemorizado. A uma prudente distância, o homem gritou-lhe: 

– Se queres que eu te traga o Sol, outra vez, deixa-me seguir, sozinho, naquela direção – e o homem apontava o sentido contrário ao Sol posto. 

O touro, que já sentia falta do Sol, concordou. Então, o homem, num passo a fingir de seguro, caminhou, sem pressa, em direção ao oriente. Salvara-se. 

Na manhã seguinte, o Sol, tal como o homem tinha prometido, voltou a aquecer o touro e a planície, a perder de vista. 

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