Viva o Natério

António Torrado 

Lá na aldeia todos sabiam que ele era ladrão, mas tinham-lhe medo. Diziam que ele assaltava viajantes, noite alta. Também contavam de assaltos a casas dos povoados próximos, estivessem lá moradores ou não. E era cruel, rancoroso, arrebatado, perverso. Um tojo, um cardo de malvadez. 

A gente pacífica da aldeia não descortinava maneira de ver-se livre do malfeitor. No tempo em que esta história aconteceu, não havia polícia senão nas cidades maiores. Os caminhos para lá chegar eram demorados e pouco seguros. Por isso, sem autoridades que lhes valessem, os aldeões viviam em perpétuo terror. 

Até que, um dia, o Natério, um dez-réis de gente, mas muito vivaço e destemido, resolveu dar a volta à história. Naquele estado de pavor geral é que as coisas não podiam continuar. 

Antes de o ladrão ir ter à casa onde se acoitava, costumava passar por perto de um poço da aldeia. Quando lhe adivinhavam a sombra, as mulheres que vinham buscar água fugiam e até bilhas e celhas deixavam na borda. 

Desta vez, o malfeitor encontrou um rapaz, que chorava baba e ranho, à beira do poço. Era o Natério. 

Não que se impressionasse com as lágrimas, mas por curiosidade, o ladrão perguntou qual a razão da choradeira. 

– Trazia uma pesada taça de prata, que a minha mãe tinha areado, a mando do senhor padre… 

– Era pesada a taça, disseste tu? – interessou-se o maganão, de olhos a luzir. 

O rapaz fez que sim e continuou o seu relato: 

– Debrucei-me para o poço, à caça de uma lagartixa, e a taça caiu-me lá dentro. Uma desgraça! O que é que eu vou dizer à minha mãe? E ao senhor prior? 

Como se temesse as respostas, o rapaz voltou ao berreiro. 

– Deixa estar que eles escusam de saber – disse o ladrão, escarranchado no bordo do poço. – Eu trago-te a taça, não tarda. 

Enfiou pelo poço abaixo, que era fundo e estava menos de meio. 

– Não encontro a taça – dizia ele. 

A voz ecoava na abóbada do poço. Era assustadora. 

– Procure o senhor do seu lado direito, que ela caiu mais para esse lado. 

O ladrão, que se segurava por uma corda presa à cintura, desceu mais um tanto, agarrado às paredes do poço. Valente era ele. 

– Ainda não achei – dizia. 

– Mas achámo-lo nós – gritou-lhe de cima o Natério. 

Dos pinhais ao redor romperam mulheres e homens, à chamada do rapaz. Agarraram todos uma enorme pedra e puseram-na a tapar a boca do poço. O bandido gritou, mas de nada lhe valeu. 

Já outros da aldeia tinham ido à cidade chamar a guarda. 

Dias depois, foi removida a pedra e o ladrão saiu a praguejar da armadilha que lhe tinham pregado. Chegando ao cimo, calou-se. Tinha guarda de honra à espera, uma fileira de canos de espingarda apontada para ele. 

Os guardas levaram-no e nunca mais se soube do brutamontes. 

O poço ganhou nome. Passou a ser conhecido pelo poço do Natério. E se, um dia, andarem por terras monfortinhas, a caminho de Castelo Branco, talvez ainda haja quem saiba dizer onde fica. 

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