‘As pestes e epidemias estabelecem a fronteira entre nós e o Outro’

Adelino Cardoso, investigador da Universidade de Lisboa nas áreas de Filosofia e História da Medicina, analisa o efeito das epidemias ao longo dos tempos 

Emília Caetano 

Com que recuo histórico podemos falar em epidemias? 

Podemos recuar bastante, mas com precauções. As doenças têm história e, porventura, não existiu na Antiguidade nenhum fenômeno análogo à Covid-19. E há, desde logo, uma questão de linguagem. O nome mais comum que podia corresponder a epidemia é peste ou praga. A palavra epidemia, que encontramos na fundação da Medicina grega, com Hipócrates, era uma doença que afetava toda a população de uma região ou de determinada comunidade. Epi significa ‘sobre’ e demos,’ povo’. Portanto, é uma doença que se abate sobre um povo. Seja epidemia ou peste, é sempre um fenômeno que se revela imprevisível, incontrolável e que evidencia a fragilidade do Homem, quer face ao sobrenatural quer à natureza. Ele mostra-se incapaz, quer pela Ciência quer pela técnica, de controlar microrganismos à sua volta que lhe afetam a saúde. 

O termo influenza, habitualmente usado para a gripe, não tinha a ver com isso? 

Sim. O Homem, pela sua própria condição, estava sujeito à influência de determinadas forças sobrenaturais ou fenômenos da natureza. 

Quais são as referências mais antigas a estas crises? 

As que nos chegam pela tradição religiosa e pela tradição, que não direi científica, mas naturalista. Assim, as fontes mais antigas não são muito precisas. A Bíblia, no livro do Êxodo, fala nas pragas do Egito. O povo judaico estava cativo, sujeito às ordens do Faraó e, por isso, Jeová lançou sucessivas pragas para libertar o seu povo. Algumas delas têm a ver com a saúde e a doença. Na primeira, as águas do Nilo são transformadas em sangue putrefato, que mata todos os peixes e tem um poder contaminador. A terceira cobre homens e animais com piolhos e a sexta com pústulas. As pragas estabelecem a fronteira entre nós e os outros, entre os bons e os maus, entre o povo judaico e o Faraó. Segundo o relato bíblico, resultaram, porque o Faraó libertou mesmo os judeus. Mas estava-se no domínio do mítico. Não sei se, historicamente, existem muitos casos idênticos, mas há um que acho extraordinário e nos diz respeito, enquanto portugueses.  

Refere-se a quê? 

À Crônica de D. João I. Quando Fernão Lopes relata o cerco à cidade de Lisboa pelo exército castelhano, em 1384, tem um capítulo intitulado Da pestilença que andava entre os Castelãos e dalguns capitães que em ela morreram. Ali diz que «Deus teve um papel providencial na proteção dos portugueses e castigo dos castelhanos operando um verdadeiro milagre, de modo que os castelhanos eram infetados e morriam às centenas, ao passo que os portugueses, mesmo os prisioneiros e outros que estavam em contacto direto com os castelhanos, ficavam incólumes». É extraordinário ele afirmar que, do lado português, ninguém era contaminado. Os castelhanos mandariam até alguns infetados à frente das suas tropas, para contagiar os portugueses, mas sem efeito. E acabaram por abandonar o cerco. Assim, também aqui foi Deus que espalhou a peste, para dividir entre os bons e os maus. Embora os castelhanos também fossem cristãos, na narrativa de Fernão Lopes há uma clara preferência de Deus pelos portugueses. 

Fala em nós e os outros. As pragas não trazem consigo o estigma? 

Sem dúvida. Basta recorrermos a outro exemplo bíblico, que é o da lepra. Diz-se no Levítico que o sacerdote, e não o médico, pode ver, mediante critérios precisos, se a pessoa com determinadas chagas tem ou não lepra. Em caso afirmativo, o leproso deve rasgar as suas roupas, desalinhar o cabelo, tapar-se até a boca, ao mesmo tempo que diz várias vezes «Impuro, impuro!». E tem de ir viver para um lugar isolado, fora do acampamento, já que os judeus eram nômadas. O diagnóstico do sacerdote era acompanhado pelo estigma, a exclusão. Esta questão do Outro surge também na primeira narrativa histórica de uma peste no espaço europeu. 

E que foi?  

A peste de Atenas, por volta de 430 a.C., que julgo ser a primeira bem documentada historicamente. Os dois grandes historiadores gregos, Heródoto e Tucídides, falaram nela, mas sobretudo Tucídides, na sua História da Guerra do Peloponeso. É interessante a coincidência de Hipócrates, que foi o pai-fundador da Medicina ocidental, ter ido então expressamente a Atenas para ver o que podia ser feito. A teoria médica, já antes desenvolvida por Hipócrates e a sua escola no livro Dos Ares, Águas e Lugares, era a de que a peste resultava de uma contaminação do ar, que afetava o espaço público. Os ares contaminados produziriam miasmas, que seriam venenos, constituídos por organismos invisíveis a olho nu e disseminados pelo vento. Não havia qualquer ideia de contágio. Na medicina de matriz hipocrática, que prevaleceu até ao século XVII, tudo o que havia a fazer era purificar o ambiente, se necessário de toda uma região. E, quando não era possível, as pessoas tinham de fugir. Mas Hipócrates era um médico muito observador.  

Viu que havia mais alguma solução?  

Constatou que os artesãos que trabalhavam com o fogo estavam praticamente imunes à peste. Pensou que, fazendo fogueiras em pontos nevrálgicos da cidade, o ar seria purificado e a peste vencida. A verdade é que resultou, embora não creia que se tenha baseado em qualquer princípio teórico.  

E não havia relação com a guerra? 

Isso volta a colocar-nos a questão do Outro. Não é acidental que esta peste surgisse pouco depois do início da Guerra do Peloponeso, que envolveu Atenas e os seus aliados contra Esparta. Tucídides acha muito surpreendente que a peste ocorresse quando Atenas respirava «uma ótima saúde a respeito das outras doenças». Portanto, haveria uma relação entre a invasão da Ática e a peste. A culpa era do inimigo. Os camponeses foram uma classe social bastante atingida. Como havia a guerra, fugiam para a cidade à medida que as suas terras eram invadidas e muitos perderam a vida. A peste de Atenas ficou confinada a uma região, mas há, pelo menos, um caso na Antiguidade que pode ser considerada uma pandemia.  

Uma pandemia? 

Sim, a peste antonina, entre os anos 165 e 180, que abarcou todo o espaço do Império Romano e foi a primeira peste global do Ocidente. Começou durante o cerco das tropas romanas à cidade de Selêucia, na Mesopotâmia, atual Iraque. A conquista foi lenta e, dadas as deficientes condições de salubridade do acampamento dos soldados romanos, a peste eclodiu e alastrou-se entre os militares, que, no regresso do Médio Oriente, a transmitiram em larga escala. Assim, alastrou-se pela Europa, Norte de África, Ásia Ocidental, enfim, pelo que eram os limites do império. Entre os mortos, contam-se os imperadores Lúcio Vero e Marco Aurélio. O médico que sistematizou e desenvolveu a medicina hipocrática, Galeno, encontrava-se então em Roma e descreveu os sintomas: febre, diarreia, pústulas. Fiel à teoria hipocrática de que as pestes resultavam da contaminação dos ares, saiu de Roma, regressando um tempo à sua cidade natal, Pérgamo. E escapou à pandemia.  

Também a Peste Negra dizimou grande parte da população europeia…  

Sim, durou de 1347 a 1352/53, e foi extremamente devastadora. Começou na China e espalhou-se pelas rotas comerciais. A explicação predominante foi então a religiosa, que fazia uma associação entre o pecado do Homem, o castigo divino e a penitência como único remédio. Houve um número grande de autoflageladores, pessoas que se flagelavam em público, para aplacarem a ira divina. Ao mesmo tempo, houve também a posição médica, embora menos influente, que defendia a fuga, já que a peste se devia aos maus ares. O rei de Aragão, Pedro III, casado com D. Leonor de Portugal, filha de D. Afonso IV, seria surpreendido pela peste quando estava perto de Barcelona. Seguiu então para Teruel e dali para Saragoça, onde constatou que a mulher estava infetada. Daí levou-a para Jérica, numa zona montanhosa, com bons ares, mas ela morreu dois dias depois da chegada. É provável que as próprias pessoas em fuga, neste caso as da comitiva do monarca, fossem as contagiadoras. Essa estratégia de fuga manteve-se ao longo dos séculos XV, XVI e XVII. Dela se socorreram personalidades bem conhecidas. 

Está a referir-se a quem? 

Por exemplo, Petrarca ou Erasmo andaram fugidos à peste. E houve um caso curioso, no final do século XVI, em França. Os médicos de Saint-Omer abandonaram a sua atividade e foram-se embora. As autoridades municipais fizeram um apelo a que regressassem, para tratar dos doentes, sob pena de serem destituídos. Eles disseram que sim, mas só voltaram depois da peste. Há também um documento muito interessante de 1563, escrito por um conjunto de médicos italianos, chamado Conselhos contra a Peste. Diziam eles que, assim como quem fugia à guerra não corria o risco de lá morrer, quem não respirasse o ar contaminado evitava ser atingido pela peste.  

Quando mudou a perspectiva médica sobre a peste?  

A partir do século XVI vamos ter pela primeira vez a ideia de contágio. Isso deve-se sobretudo a Girolamo Fracastoro, que tratou vários casos de sífilis e estudou as causas, o modo de transmissão e a cura da doença, que surgira nos finais do século XV e depressa se propagara à escala planetária. Com ele surgiu então o conceito de contágio, entendido como a transmissão de uma doença através de um agente invisível, um microrganismo ínfimo, sem que o portador tivesse consciência disso. Esta nova perspectiva implicava atenção não só à qualidade do ar e das águas, mas também à proximidade entre indivíduos, passando a incentivar-se o isolamento e a restrição de contatos com o resto da população e outro tipo de doentes. Rapidamente foram construídos hospitais destinados especificamente a infetados pela peste. Exemplo disso foram os dois hospitais criados na periferia, na sequência de peste de 1568, em Lisboa. Daí para a frente, encontraremos uma atitude diferente, quer da parte médica quer dos responsáveis políticos pela saúde pública. E, em Portugal, há uma figura que me ocorre de imediato… 

Quem?  

Ricardo Jorge e a sua intervenção na peste bubônica, que teve o epicentro no Porto. O que me impressiona é a rapidez com que este médico portuense respondeu ao alerta de um comerciante, o rigor do diagnóstico, a prescrição de medidas de confinamento e higiene. Destaco ainda a coragem com que se bateu pelas suas ideias 

Olhando para as epidemias ao longo do tempo, que paralelismos lhe ocorrem?  

Hoje, tal como no passado, mostram os limites do ser humano, do seu conhecimento. Portanto, diminuem a confiança no seu saber. Há um elemento sempre referido quando se fala em pestes ou epidemias, que é ser uma doença desconhecida. Isso sucede desde a Guerra do Peloponeso até agora, ao Covid-19. Confrontam-nos com a nossa dificuldade em conviver com a incerteza. A peste e as epidemias alteram muito as formas de convivência. Têm sempre a ver com o coletivo, com o espaço público. Em cada circunstância surge o receio de que o Outro possa infetar-me. Desaparece uma atitude fundadora da cidade que é a relação de proximidade entre os homens. Gera-se o contrário, a desconfiança, o colocar o Outro no lugar de um potencial inimigo. 

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FONTE: CAETANO, Emília. Adelino Cardoso: ‘As pestes e epidemias estabelecem a fronteira entre nós e o Outro’. In. Revista Visão HistóriaPaço de Arcos (Portugal): Editora Trust in News, Unipessoal, n. 58, Abril/2020,  págs 7881(Epidemias/Entrevista) 

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