A tumba de Rômulo

Durante escavações na Itália, arqueólogos verificaram a existência de um hipogeu, uma espécie de sarcófago onde teria sido enterrado o fundador de Roma. Mas seus restos mortais não foram encontrados. 

Anna França 

Quando se fala na fundação de Roma, mito e realidade sempre se misturam. Supõe-se que a cidade tenha sido criada por Rômulo em 21 de abril de 753 a.C. Diz a lenda que Rômulo e Remo eram gêmeos e filhos da mortal Rhea Silvia com o deus grego Ares, ou Marte, na nomenclatura romana. Sabendo disso, o tirano rei Amúlio, que depôs Numitor (pai de Rhea) e assassinou os irmãos dela, obrigou a jovem a se tornar uma sacerdotisa e matar as crianças. Mas Rhea, para tentar salvá-los, teria colocado os meninos num cesto e jogado no rio Tibre. A correnteza, então, teria levado a cesta até a beira do outro lado do rio, onde as crianças teriam sido milagrosamente encontradas e amamentadas por uma loba, até que fossem resgatadas e criadas pelo pastor Fáustolo. 

Rômulo e Remo cresceram juntos e, anos depois, os dois irmãos recolocaram seu avô Numitor no trono e partiram para fundar a nova cidade. Mas ao se desentenderem sobre o local onde Roma deveria ser construída, Rômulo matou Remo e tornou-se o primeiro rei da cidade. Agora, uma descoberta considerada excepcional pelos arqueólogos, indica o que poderia ser o túmulo do fundador de Roma e traz novamente à tona a discussão sobre a verdadeira história da cidade e até se os irmãos realmente existiram. 

A apresentação local, feita no dia 21 de fevereiro deste ano, mostra não apenas a história de Roma, mas parte da história da Itália. Isso porque o lugar era conhecido por especialistas, desde o século 19, como o Fórum Romano, ao redor do Comitium, um espaço previsto para reuniões na antiguidade. A descoberta do chamado hipogeu (monumento funerário subterrâneo, com cerca de um metro e quarenta centímetros), logo abaixo do Fórum Romano, centro político de Roma, porém, já era bastante polêmica. A espécie de sarcófago ladeada por uma base circular indicaria a existência de um altar onde eram feitas as homenagens em memória do fundador e não, efetivamente, o local de seu sepultamento. A diretora do Parque Arqueológico do Coliseu, Alfonsina Russo, diz taxativa tratar-se de “um monumento à memória e um local de homenagens ao fundador de Roma”. 

Ela explica que não pode ser um túmulo porque, segundo dados históricos, Rômulo foi assassinado pelos senadores e esquartejado, tendo suas partes espalhadas em diferentes cantos da cidade. Por isso, não existia um cadáver. Enquanto isso, outros voltam a misturar realidade e lenda e alegam que ele havia se tornado um deus Quirinus no céu. Apesar das discussões, Alfonsina, no entanto, afirmou que o Parque Arqueológico do Coliseu vai continuar disponibilizando dados para a continuidade das pesquisas para todos os estudiosos. “Foi uma grande descoberta para nós encontrar um sarcófago, como o historiador Giacomo Boni o havia descrito no século 19. O lugar tinha sido esquecido”, conta. 

PLANOS FUTUROS 

As escavações serão retomadas em abril, o que poderá fornecer mais informações sobre o local e proporcionar novas surpresas, mesmo que nenhuma ossada tenha sido encontrada, dando indícios de que não havia um corpo enterrado ali. Mesmo assim, a pesquisadora Patrizia Fortini, responsável pela investigação original, ainda defende a tese do hipogeu no lugar de um memorial, afirmando que o sepultamento de partes teria ocorrido muito próximo de onde se relata que Rômulo morreu. Para muitos historiadores, o fato de Rômulo existir ou não é irrelevante. O que mais importa é que essa figura tenha sido considerada pelos autores da antiguidade como o ponto de partida para marcar o nascimento político da cidade de Roma, avalia o arqueólogo Paolo Carafa. Especialista em antiguidade romana na Universidade La Sapienza, ele afirma que os arqueólogos do Parque do Coliseu se propõem a reconhecer os dois objetos – o sarcófago e o cilindro de pedra – como o túmulo de Rômulo. “Porém, eu aconselharia que, a partir dessa descoberta, possa ser aberto um debate científico”, conclui Carafa. 

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FONTE: FRANÇA, Anna. A tumba de Rômulo. In. Revista Isto É. São Paulo: Editora Três, 18/03/2020, ano 43, n. 2618, páginas 48-49. (Comportamento/Arqueologia) 

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