Mar

por Vitor Encarnação 

Devia ir mais vezes ver o mar, o mar faz bem a tudo, não há sentido nenhum no nosso corpo que não aproveite, não há horizonte mais planos do que o mar, lá ao fundo começa o céu. 

Não vivo perto do mar, se calhar se vivesse não gostava tanto dele, a vida tem destas coisas, a distância faz-nos querer o que não temos. 

Uma maré-cheia é o desejo que o mar tem de pó. É o mundo que se inclina lentamente, para que a água beba a terra e a enfeite de conchinhas e de segredos. E o fogo os aquente. Como um homem e uma mulher. Digo eu. O fogo é o sol. Mas também podem ser os olhos. 

Quando o desejo baixa, sobra um fino lençol de água por onde eu passo descalço de tudo. 

É preciso dizer que um mar com abismo é diferente. Um mar com abismo chora mais porque a água sabe que não consegue galgar aquela fronteira de pedra, aquele chão vertical, aquela impossibilidade de quem não tem asas. E só tem sal no corpo. É marulhada que se desmancha. E no meio desta aflição uma gaivota grita. Pois saibam que é ela que une o mar e o abismo. Num penhasco, a gaivota põe ovos. É de dentro deles, disseram-me, que se solta o vento. 

Acho que o mar é azul porque o céu se deita sobre ele. 

Nem mesmo o firmamento aguenta estar pendurado no vazio, crucificado no éter do mundo. E então quando o mar está verde? Que céu é esse que deixa ver os peixes e o apetite? Do íntimo, talvez do colo do horizonte, nasce uma onda. Faz-se uma maneira de água e destino. É a garupa do mar, uma bandeira de sal, o mastro das profundezas. Um grito líquido. Uma caneta escrevendo espuma. 

Apanho um búzio, ponho-o ao ouvido e escuto. É o vento doido a soprar debaixo da água. 

Ao longe, um barco é uma mão que passa pelo mar. As unhas são proas rompendo a quietude de dedos. Esticam-se as cordas dos braços. Ata-se a brisa do rosto. Acende-se uma vela em cada corpo. E lança-se uma âncora. E eu faço de conta que sou o capitão daquilo tudo. Um miúdo constrói castelos de areia. Ainda não conhece os outros materiais que se desvanecem. 

O silêncio levanta-se e tapa tudo como um nevoeiro transparente. 

O sol crepita no teto da praia. 

Uma mulher traz o verão todo tatuado na carne. 

Uma nuvem que passa é um ponto de exclamação que sinto por dentro. 

Tonto de maresia e miragens, adormeço. 

E já não vejo o mar a sorrir quando vaza. 

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FONTE: ENCARNAÇÃO, Vitor. Mar. In. Correio Alentejo. Funchal (Portugal): Jota CBS, 26/06/2020, ano 15, n. 496, pag. 15. (Contrakapa) 

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